Se conselho fosse bom...
Ou talvez eu devesse intitular este texto como "Até que esta profissão não deve ser tão ruim assim." Minha filha de 17 anos está terminando o último ano do ensino médio....VESTIBULAR !!! Nossa, parece que foi ontem, lembro-me de detalhes dessa fase da minha vida. Mas agora é a vez dela passar por isso. Fico pensando se minha mãe era maluca ou o quê, ou se eu é que disfarçava bem e fazia de conta que era uma pessoa centrada, ajuizada. Na mesma idade da minha filha, fui morar à 8 horas de viagem de ônibus da casa dos meus pais. Fato é que estou APAVORADA com a possibilidade da minha princesinha talvez morar longe de casa. Por que longe de casa? Porque (devo ter errado a forma de escrever os "porques") ela quer ter a profissão da mãe...e do falecido pai. E quer estudar em escola publica. Não bastou ela ver que a mãe dificilmente começa e termina uma refeição sem ser interrompida pela campainha ou telefone? Não bastou ela ver a mãe com a roupa imunda de barro, sangue ou cheirando à miíase? Não bastou ela ver a mãe acordando várias vezes durante a noite para monitorar um paciente grave? Não bastou ela ver a mãe possessa de raiva por ter se dedicado à um trabalho e no final levar um solene calote? Não bastou ela ver o gato encravando os dentes no braço de quem estava tentando ajudá-lo? Não bastou ela ver os pais de colegas que trabalham horas infinitamente menores serem muito mais bem remunerados por isso? Não bastou ela ver a mãe maquiada, de salto, perfumada, colocando o jaleco por cima disso tudo e telefonando para avisar que infelizmente não poderia cumprir o compromisso social devido à uma emergência na clínica? Não foi suficiente ver a mãe trabalhando 15 ou 20 ou até 30 dias seguidos, sem descanso, para cobrir a falta de outra veterinária? Não. Não bastou. Anos atrás ela teve idéia de fazer letras, pois tem muita facilidade com o inglês, mas, me perdoem os profissionais em letras, se é para receber baixos salários, que se torne uma veterinária! Brincadeira. Expliquei para ela que saber muito bem o inglês, e de preferência também o espanhol, é uma condição básica para se sair bem em qualquer profissão. Daí à fazer o curso de letras, tem um abismo. Então resolveu ser engenheira quimica. Ia muito bem em química na escola, vasculhou sobre as profissões ligadas à isso e achou bacana ser engenheira química. Respirei aliviada. Curso em moda, campo aparentemente vasto, já a imaginei embarcando para passar meses presa numa plataforma de petróleo em alto mar, longe das baladas e das drogas, explorando o pré-sal, e recebendo salários maravilhosos pagos por uma estatal, com direito à férias na Europa anualmente. Que presentes eu ganharia nos dias das mães !!!! Mas não sei o que houve, ela mudou de idéia. "Mãe, vou prestar veterinária". Fui invadida por um misto de orgulho e terror ao mesmo tempo. Orgulho, porque de alguma forma ela viu vantagens em seguir a minha profissão, então não devo ser tão mal exemplo assim. Terror, porque o mercado para a veterinária não está bom, a cada dia se sobressaem mais os profissionais que tem maior talento para o comércio, e não o dom para a medicina veterinária. Escolha profissional feita, vem a questão de onde estudar. Temos aqui pertinho a Metodista, um pouco mais à frente a Uniban, e por perto também a Uniabc. Imagine se ela ao menos quer prestar vestibular nessas particulares... Ela quer estudar ou na USP, ou na Unesp de Botucatu, ou na UEL em Londrina, faculdade em que me formei. Nada contra as particulares, mas ela quer seguir os passos dos pais. Sinceramente, fico torcendo para que ela ainda não entre em nenhuma dessas faculdades. Acho que ainda é cedo. Eu sei o que é morar longe de casa... Foi morando longe e casa que aprendi a fritar ovo, tomar remédio sozinha, andar de ônibus, ir ao médico sem a mãe, mas também foi assim que aprendi a achar que a cerveja nem é tão amarga assim, a virar noites estudando ou tentando aprender a cantar modas de viola, a sair e voltar sem ter que dar satisfação à ninguém, e outras coisas inconfessáveis que fazemos na adolescência. Nada do que aprendi morando fora de casa foi comprometedor para o meu futuro, mas me pego agora pensando e agindo como as minhas tias solteironas e conservadoras. O mundo está mudado, não existe mais a inocência que existia duas décadas atrás, a maldade está por todo o lado, e a minha princesinha não está pronta para enfrentar isso tudo sozinha. Verdade que minha primeira viagem sem meus pais foi minha ida à Londrina para prestar vestibular. Eu também era dependente. Mas tive amigos que cuidavam de mim, tive sorte, coisa que não se pode prever se vai se repetir com a minha filha ou não. Por outro lado, fico aliviada em saber que provavelmente alguém vai dar continuidade ao meu trabalho, e que este prédio construído com tanto amor e suor vai continuar sendo útil por mais algumas décadas. A sorte está lançada (mesmo com o cancelamento do ENEM por fraude...)
Escrito por Márcia às 10h38
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