Mundo Vet
   Hiperplasia mamária em gata

Engana-se quem pensa que o veterinário não passa por frustrações diárias. Passa sim.

Em janeiro atendi essa gatinha. Havia o histórico de que ela estava assim há uns 15 dias, e a proprietária estava numa cidade do interior, o que fez com que ela a levasse para um veterinário local. Ele receitou medicamentos que tem a função de secar o leite, mas eles não trouxeram nenhuma melhora.

De volta à São Bernardo, a proprietária a trouxe para que eu examinasse. Na hora me lembrei de ter visto fotos dessa condição, mas não me lembro de ter atendido nenhum caso de hiperplasia mamária em gatas.

Meu primeiro instinto foi de recomendar a mastectomia radical, isto é, de retirar cirurgicamente todas as mamas. Comentei minha idéia com a proprietária, mas disse que ia estudar mais um pouco o assunto. E foi o que fiz.

A cirurgia radical de mastectomia não é algo tão simples. Normalmente enfrentamos o problema de não haver pele suficiente para fecharmos a ferida cirúrgica, e o pós-operatório é um pouco complicado,  pois é comum formação de seroma (liquido no subcutâneo), deiscência (abrir pontos) e é uma cirurgia muito dolorosa.

Conversando com colegas e pesquisando descobri que hoje em dia existe um medicamento (caro!) que quando aplicado reduz rapidamente o problema.

Essa gatinha é muito jovem, o problema apareceu logo depois de seu primeiro cio. É mais comum em gatas que tenham tomado injeções de anticoncepcional, mas a proprietária me garantiu que esta não tomou.

O plano era aplicar a medicação, esperar alguns dias até as mamas ficassem menores, e em seguida castrá-la.

Uns 2 ou 3 dias após a consulta, já com todas as respostas na ponta da língua, orçamento feito, liguei para a proprietária, super feliz por ter conseguido descobrir algo menos radical do que a mastectomia. 

Com relação à valores, não seria um tratamento barato, mas custaria uns 30 % menos do que a cirurgia. Embora eu tivesse o prazo de 28 dias para pagar pelo medicamento, em uma só vez, ofereci o tratamento em 6 vezes sem juros. Queria muito fazer. Me sentia angustiada a cada vez que olhava para essa foto.

Consegui o contato com a proprietária, expliquei tudo muito bem, e disse que esperaria que ela me sinalizasse que eu poderia adquirir o medicamento, assim começaríamos a tratá-la.

Passaram uns 30 dias, e a proprietária que ficou de conversar com o marido para resolver sobre o tratamento, não entrava em contato.

Tentei ligar várias vezes, e durante semanas o único numero de telefone dela que eu dispunha informava "Este telefone está programado para não receber chamadas temporariamente".

Desespero!

Passadas mais algumas semanas, num certo dia, o telefone foi atendido. Perguntei sobre a gata, e fui informada de que ela estava do mesmo jeito, mas que comia e dormia bem (isso basta?).

Insisti em marcarmos o início do tratamento, relembrei a ela quais eram meus planos, mas senti que havia falta de interesse.

Até que chegou um momento em que ela disse: "Olha, vc por favor me dá o nome do medicamento, que eu vou na casa de ração, compro e aplico".

Meu Deus, o nome do medicamento é o que menos importava nesse momento. Esse medicamento não é vendido em lojas. Trata-se de um hormônio, de uso exclusivo pelo médico veterinário. O balconista de loja, mesmo que pudesse comprá-lo, não saberia indicá-lo. É um medicamento cheio de efeitos colaterais. Mais até do que em outros casos, existe uma dose apropriada para cada espécie, peso do animal e situação em que se vai usá-lo.

Nunca mais tive contato com a proprietária.

Certamente a gatinha está convivendo com suas mamas enormes. Uma pena. Frustrante...



Escrito por Márcia às 16h03
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   Feliz 2011 !!!

Ano novo, primeiro dia de trabalho em 2011.

Velhos problemas...

Um cliente muito cuidadoso com seus dois cães, é avisado em 2010 de que as vacinas de seus cães venceram, precisam ser revacinados.

Na época, ao telefone, já tive que me explicar e pensei que tivesse sido suficiente, mas não foi. Ele estava com medo de trazer seus animais para vacinar, pois acompanhou na mídia o problema que a vacinação pública havia causado em grande parte dos animais, chegando ao óbito em casos extremos.

Expliquei que as clínicas particulares não usavam a mesma vacina, que não havíamos mudado nada , nem mesmo a marca que sempre usamos, e que os problemas só estavam acontecendo com a vacinação oferecida pela prefeitura, e seus animais nunca a tomaram, sempre foram vacinados na clínica particular, com vacinas importadas.

Hoje, logo que abro a clínica, é ele o primeiro cliente do ano.

"Doutora, eu os trouxe para vacinar, mas antes quero que me assegure de que meus animais não terão nenhuma reação à vacina".

Nossa, situação complicada. A chance de que os animais dele apresentem uma reação a uma vacina utilizada há anos, é infinitamente pequena, mas todas as vacinas, sejam elas aplicadas em animais ou em humanos, pode causar uma reação.

Seus cães não são mais predispostos do que outros, seja por serem mestiços, seja por terem porte grande (ambos pesam mais de 20 quilos), seja por já terem sido vacinados pelo menos 6 anos seguidos e nunca terem apresentado nenhuma reação. Mas daí até eu garantir que não haverá reação, é uma coisa muito diferente.

Apelei para as estatísticas. Na verdade, nos meus 20 e tantos anos de trabalho, nunca presenciei um caso de reação anafilática pela vacinação antirábica. Assim como joguei na megasena muitas vezes e também nunca acertei os 6 números.

Posso um dia acertá-los (tomara que sim!), assim como pode um dia um dos cães que vacino apresentarem uma reação ruim.

Notei que não fui muito convincente. No final ele autorizou as vacinas, mas não sem antes me avisar que os morcegos que habitam perto de sua casa não são hematófagos (tentando me convencer de que seus animais podem fazer parte de uma exceção - e a lei que obriga a todos os proprietários de cães e gatos manterem seus animais vacinados , possa ser por mim revogada).

Pelo menos já faz mais de uma hora que saíram da clínica e até agora não recebi nenhum telefonema de um proprietário desesperado do outro lado da linha, me ameaçando de morte.

Feliz 2011, antes que eu me esqueça...



Escrito por Márcia às 11h37
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Pertinho da clinica, temos uma Base da Policia Militar.  Infelizmente já precisei chamá-los algumas vezes, e fui prontamente atendida.

Nada mais justo do que eu atendê-los quando precisam dos meus serviços.

Esta semana, uma PM veio até a clínica contando que jogaram no jardim da Base um cachorro muito doente, que nem levantava a cabeça quando era chamado. O cão era desconhecido, ninguém o tinha visto nas imediações nos dias anteriores. Alguém deve ter jogado ele lá. Pedi para trazê-lo.

Era um poodle preto, com pêlos muito emaranhados, demonstrando estar sem cuidados há muito tempo. Esse cão tinha mioclonias, isto é, tinha "tiques nervosos", sintoma típico da fase neurológica da cinomose. Além disso, não andava, tinha um corte na região dos joelhos, e apresentava uma fratura no maxilar, deixando seus dentes incisivos e caninos supertiores soltos, impedindo que comesse ou bebesse água.

Até tentamos dar água pois ele aparentava sede, mas em seguida de ter tomado, vomitou.

Era muito magro, aliás, era assustadoramente magro. Os pêlos disfarçavam um pouco essa condição.

Após conversarmos muito sobre todos os problemas dele, chegamos à conclusão que não seria viável seu tratamento.

Era necessário uma cirurgia ortopédica para corrigir a fratura na boca, mas jamais poderíamos submeter à uma cirurgia um animal que está em plena cinomose. Para tentar tratá-lo da cinomose antes de operar, também seria inviável, pois jamais se sairia bem da doença sem poder se alimentar.

Decidimos pela eutanásia, que seria a única forma que dispomos para dar uma trégua à sua tão sofrida vida. 

E assim fizemos. 

Antes mesmo da injeção letal, quando ele já estava sob efeito da anestesia geral, seu semblante mudou. O sofrimento que notávamos em seus olhos desapareceu. Tivemos certeza de que seria um alívio.

Quando o procedimento terminou, a PM perguntou quanto me devia. Claro que não cobrei. Ela não tinha responsabilidade nenhuma sobre aquele animal, apenas o socorreu, talvez até mesmo movida pelo costume de socorrer pessoas que precisam da força policial por perto nos momentos mais dificeis.

A PM agradeceu muito e foi embora.

Horas mais tarde, quando volto do meu almoço, encontro um presente maravilhoso em cima da minha mesa.

 

Confesso que até escorreu uma lagrimazinha no canto do meu olho , de tanta emoçaõ.

Não precisavam fazer isso. 

Mas com certeza melhorou o meu natal.

 

 



Escrito por Márcia às 16h35
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BRASIL, Sudeste, SAO BERNARDO DO CAMPO, RIACHO GRANDE, Mulher, de 46 a 55 anos, Portuguese

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